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setembro 14, 2015 Posted by GTA in Notícias da Rede GTA

Organizações socioambientais estão sem recursos para levar projetos adiante

Rubens Gomes é mais conhecido pelo apelido, Rubão, entre os amigos. E são muitos amigos. Há mais de duas décadas envolvido até a medula em causas e movimentos socioambientais, ele hoje preside uma rede que tem quase 600 organizações, o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), e também está na direção da Oela (Oficina Escola de Lutheria da Amazônia). Tudo começou quando Rubão decidiu ensinar seu oficio, de lutherista, para crianças e adolescentes de Manaus, onde vive. Com uma grande diferença entre os demais lutheristas: todas as madeiras que usa para fabricar instrumentos são tiradas de árvores que foram conscientemente arrancadas do solo, em manejo sustentável (as mais velhas, as que estão causando sombras e impedindo o crescimento de outras, por aí vai...).

Conheci Rubão em 2003, ainda como editora do caderno Razão Social* , e recentemente tenho acompanhado seu trabalho à frente do Protocolo Comunitário do Bailique (leia aqui, aqui  e aqui) . Da última vez que estivemos juntos, no Arquipélago, Rubão comentou sobre a dificuldade que está tendo para captar recursos e levar adiante o terceiro ano do Protocolo. Outras organizações como a sua também estão tendo dificuldades financeiras, a ponto de fecharem, contou-me.

Num país que tem um governo voltado para as questões sociais há mais de uma década, uma das explicações para o fenômeno é que o estado tomou para si o controle social, tirando a força das ONGs. Mas há outros novelos que enredam essa teia e têm a ver também com o mundo corporativo. Os cidadãos comuns, por sua vez, interessam-se pouco, não têm a cultura de fazer doações.

Por telefone, ontem consegui entrevistar Rubão, que estava em trânsito, indo e voltando de lugares distantes da Amazônia, praticamente seu “escritório de trabalho”. Meu objetivo foi trazer ao blog essas informações, importantes sobretudo num momento tão sensível como este que o país atravessa.  A entrevista abaixo foi feita antes de ele pegar o barco e navegar 15 horas de Macapá até o Bailique para contar a boa nova aos moradores: no próximo Encontrão, que vai acontecer em outubro, o GTA vai levar o procurador da República Thiago de Almeida para ampliar o diálogo sobre a regularização de terras, ponto nevrálgico da região.

Abaixo, a íntegra de nossa conversa.

Numa das reuniões para a produção do Protocolo Comunitário do Bailique você fez questão de dividir com os moradores que tinha perdido uma parte do apoio financeiro mas que continuaria prospectando recursos para levar adiante e terminar o trabalho. E comentou que parte das 600 organizações que fazem parte do GTA estão com grandes dificuldades. O que está causando isso?

Rubens Gomes – As organizações socioambientais que ainda estão bem, com recursos suficientes, são aquelas que passaram a prestar serviços para o processo de mitigação e compensação de impactos das grandes obras de grandes empreiteiras.  Essas ONGs viraram tábua de salvação dessas empresas. Elas saíram de seus projetos, de suas plataformas, e passaram a ser prestadoras de serviços. Estão muito bem financeiramente, mas não têm mais tempo para perceber que existe uma luta socioambiental que ainda precisa ser implementada. Não assinam manifestos.

Essa cooptação das organizações foi uma estratégia da lógica corporativa...

Rubens Gomes – Sim, essas ONGs agora não vivem mais de doações porque as empresas fazem contrato com elas, entende a diferença? Elas têm metas para cumprir, têm planilhas, até a linguagem é corporativa... E aí, para completar o quadro favorável às empresas, o estado reduz o pagamento das compensações ambientais... Vou ser irônico agora: reduziu porque as empresas já são muito penalizadas, sabe? Imagine você!

Bem, mas como disse você, essas ONGs contratadas por empresas estão bem. E as outras, para as quais faltam recursos? Desde quando estão sofrendo com o problema?

Rubens Gomes – No geral, as organizações como a Oela, o GTA, a Vitória Amazônica, e tantas outras por esse país afora, que vivem dentro de suas plataformas de atuação, que vivem de doações, não de contratos, elas passaram a sofrer com a falta de recursos de uns 3, 4 anos para cá. Foi quando o Brasil saiu da categoria de país pobre e passou a ser a sétima economia do mundo. É claro, nesse momento, o país passou a assumir suas organizações sociais.

Passou a assumir, isto quer dizer, dando a elas recursos?

Rubens Gomes – Não. O estado brasileiro parou de gerar mecanismos de repasse de recursos públicos para essas organizações sociais como antigamente. O próprio GTA tinha uma renda pequena, de R$ 3, 4 mil, para mulheres, para pequenas agroindústrias, que não temos mais. É importante observar que essas organizações têm um serviço relevante em várias áreas.

Recentemente fiz uma entrevista com a Moema Miranda, do Ibase, que me falou também sobre a dificuldade de as ONGs conscientizarem os cidadãos . Faz parte desse serviço relevante sobre o qual você fala, né?

Rubens Gomes – Sim. Essas organizações têm serviços relevantes em diversas áreas, inclusive desenvolvendo tecnologias sociais para serem aplicadas como políticas públicas em múltiplas situações. Foi um capital social construído ao longo de 60, 70 anos, que possibilitou inclusive que um metalúrgico chegasse à presidência da república, coisa que seria impossível a burguesia e a  riqueza brasileira financiarem.

Estou entendendo que o problema foi que o governo passou a controlar esta ação social. Mas o papel de uma administração que tem um olhar voltado para essas questões não é, justamente, de tirar das mãos das organizações e criar políticas públicas com vistas ao bem estar social?

Rubens Gomes – Se isso tivesse acontecido eu estaria aplaudindo. Sou lutherista, consigo ganhar dinheiro com o meu trabalho, construindo meus instrumentos.

O que deu errado?

Rubens Gomes – Quando se cria uma política pública nacional tem que levar em conta que quem vai implementar não é o governo federal, mas o estado, os municípios... E nem sempre o compromisso dessas pessoas é o mesmo do mentor da ideia inicial. A grande maioria desses processos é deturpada ladeira abaixo, não chega ao chão. Quebra o trabalho das organizações e não oferece nada em troca, a não ser um assistencialismo barato, a manutenção da pobreza, da dependência. A ponto de hoje estarmos assistindo ao fechamento de muitas dessas organizações.

Você está observando esse movimento aí em Manaus?

Rubens Gomes – Em todo o Brasil. Só para dar um exemplo: no mês passado, a Oela recebeu um prédio como doação de uma organização que fechou por falta de recursos. Eles trabalhavam na periferia de Manaus há dez anos, prestando serviço para crianças e adolescentes abandonados.  Uma organização que custaria aos cofres públicos menos de R$ 1 milhão por ano e fazia um trabalho que vale muito mais do que isso.

Falamos das empresas, falamos do governo. Mas qual a contribuição da sociedade em geral, do cidadão comum, para mudar a situação de exclusão que ainda nos incomoda tanto no Brasil?

Rubens Gomes – Se a sociedade resolvesse assumir o papel de dona desta nação e pusesse R$ 1 que fosse na conta de uma organização social e, obviamente, acompanhasse o que está sendo feito com esse dinheiro, em algum momento ela poderia tirar a grade da porta da casa. E não precisaria gastar dinheiro mandando blindar os vidros do carro. Enquanto o investimento for só na blindagem de carros, para levantar muros, aumentar o tamanho do aço da grade da portaria, não teremos mudança, nem a curto nem a longo prazo.

Além disso, muitos estão lutando para diminuir a maioridade penal, acreditando ser esta a solução dos problemas...

Rubens Gomes – Não é a solução. A sociedade não dá carinho, atenção, não dá condições reais para famílias, não dá escola com qualidade. Veja um exemplo: a Oela está  fechando uma parceria de baixos recursos com a Unicef para ajudar jovens da periferia aqui em Manaus. É a solução do problema? Não, mas é um indicativo de que é possível fazer algo com poucos recursos. A sociedade precisa mudar. Ela se mostra solidária em algumas situações,  mas é apática diante da diversidade de crimes ambientais, da exclusão de crianças nas ruas.

Há quanto tempo você atua nessa área de movimentos sociais?

Rubens Gomes – Há quase vinte anos. E posso dizer que eu e vários companheiros  temos tecnologias fantásticas, contribuições de alta qualidade que podem inovar na educação, na saúde. São pessoas que foram aprendendo no ativismo, somos um grupo pioneiro que já foi chamado até para ensinar os acadêmicos. O Brasil, hoje, na situação em que está, com essa crise política e financeira, não pode se dar ao luxo de abrir mão desse capital social que ele desenvolveu.

Você hoje é de algum partido político?

Rubens Gomes – Sou militante de esquerda há 30 anos, ajudei a criar o governo Lula, mas hoje, que presido uma organização como o GTA, faço questão que seja uma administração apartidária.

Por quê?

Rubens Gomes – Porque um dos erros que vi dentro do governo Lula foi essa tensão: governo é governo; movimentos sociais são movimentos sociais. Isso enfraqueceu os movimentos, não quero cometer o mesmo erro. Mantenho a organização com dificuldade, mas ela não deixa de produzir, ela pauta o estado.

*Suplemento sobre sustentabilidade encartado no jornal O Globo de 2003 a 2012

Crédito da foto: Amelia Gonzalez

Fonte: G1

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